ideia de número sessenta e três

Comprei um livrinho com cem ideias para começar histórias de ficção científica.

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Eu sei que tinha meio que prometido parar de comprar livros, mas ele tava em promoção na livraria perto da casa da Fabi.

Até agora, a ideia de número sessenta e três foi a que mais me interessou. Diz ela:

Incríveis avanços nos transportes deixaram rápido e barato chegar em qualquer lugar do planeta em minutos. Uma pequena caminhada e um trajeto de cinco minutos te leva a qualquer cidade no mundo por praticamente nada. Você pode procurar emprego em qualquer lugar do planeta. Não existe mais esse negócio de “relacionamento à distância”. E não há desculpas para perder contato com amigos e família.

Aí vem o que me faz gostar tanto da ideia de número sessenta e três:

O que significa para a sociedade que identidade, educação, possibilidades de emprego e relações pessoais de um indivíduo não estejam mais ligadas a uma localidade específica? A tecnologia faz o mundo parecer menor ou as possibilidades são muito esmagadoras? Quando é mais difícil cortar os laços, o que eles significam?
(Prompt nº 63, 100 Prompts for Science Fiction Writers, Leslie and Jarod Anderson)

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Pois bem.

Uns dias depois de ter comprado esse livro na livraria perto da casa da Fabi, voltei pra minha própria casa em uma viagem que não demorou uns minutos, mas quase dois dias. Na última perna daquela jornada, dividi o voo com uma ex-amiga.

Esse conceito. É tão da vida. E tão difícil.

Quando meu pai viaja junto, sempre entramos primeiro e saímos por último do avião. Então, quando ela entrou, eu já estava lá. E, quando ela saiu, eu lá permanecia. A gente se viu. Duas vezes. Mas não se cumprimentou. Nenhuma vez.

É assim – como se Roma tivesse caído num dia só – que você pode ter certeza que um status se alterou de amigo para ex-amigo. Não precisa ter um evento determinante traumático, embora possa. Pode ser briga, discussão, quebradeira. Mas também pode ser só um passar por.

Ou dois deles. Um na entrada e outro na saída de um avião qualquer, quando ainda não se pode viajar pra qualquer canto do planeta em minutos por quase nada. Quando ainda é possível achar boas desculpas para perder contato com outras pessoas.

Quando as promoções de passagens ainda te fazem viajar por quase dois dias inteiros, mesmo que você precise entrar primeiro e sair por último em todas as conexões. Quando um indivíduo ainda tem identidade, educação, possibilidades de emprego e relações pessoais definidas por uma localidade específica.

Esse pedaço de vida – tão rápido dentro de um evento que foi tão longo – está comigo desde então. Estou aqui, refletindo um pouco todo dia, mas não o dia todo, sobre ele. Querendo tirar alguma coisa dessa história toda – ou tirar essa história toda de alguma coisa –  acertando o teclado uma letra por vez.

Com nenhuma das duas coisas tive muito sucesso até agora, embora eu tenha acertado muito o teclado uma letra por vez desde que isso aconteceu.

É que é difícil falar de fim.

Já pensei em mil cenários pra essa mesma história. Em cem outras ideias, com as quais eu poderia escrever um livrinho de ideias para histórias de amizade, se eu tivesse tido essa ideia antes de comprar o livrinho de cem ideias para histórias de ficção científica.

Já montei outras histórias que cruzariam com essa que contei agora bem aqui, no meio desse texto. Como eu e minha ex-amiga nos cruzamos aquele dia no avião. Mas nenhuma delas parece querer parar e cumprimentar essa história aqui.

Hoje mesmo, mais cedo, quando comecei a escrever esse texto, ele tinha toda uma outra estrutura – nem sequer falava da ideia de número sessenta e três. Eu tinha certeza que ele ia comportar a história do avião e a história das figurinhas do Neymar que a Bruna Marquezine ganhou essa semana, que me fez ter toda uma outra reflexão sobre amizade, bem mais feliz que essa de agora. Mas não deu certo.

São duas boas histórias, mas que não combinam uma com a outra. Poderiam estar lado a lado num livrinho de cem ideias para começar histórias de amizade, mas não podem existir aqui. Não se encaixam.

É que ter cem ideias para começar histórias – de amizade ou de ficção científica – é fácil.

Difícil é sair desses começos e terminar as histórias.

No texto. No avião. Na vida.

É que é difícil falar de fim.

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