foi golpe, sim

Deve ter sido um plano desde o começo.

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Certeza que foi. Olhando daqui pra lá, não tenho mais dúvidas que foi. Sou muito manipulável. E Renan é muito manipulador. Fiquei até com raiva retroativa agora, antes de começar a contar do quê. Alguém vai dormir no sofá hoje.

Esses dias, ele reclamou que fazia anos que não via filmes de terror no cinema. Mas o plano infalível deve ter começado antes. Mais precisamente quando a gente foi ao cinema ver um filme qualquer e passou um trailer – daqueles que Renan não consegue escapar por motivos de já está dentro da sala – de um filme de terror. Odeio.

Odeio filmes de terror, mas acho que odeio ainda mais trailers de filmes de terror.

Se você cai na besteira de decidir ver um filme de terror, pelo menos já está ciente de que caiu na besteira de decidir ver um filme de terror. Agora, quando você é obrigado a ver um trailer de filme de terror só porque passa antes do filme que não é de terror que você foi ao cinema pra ver, você não tomou essa decisão. Decidiram por você. Você foi pego totalmente de surpresa. Não se preparou pra isso, não escolheu, não acionou as chaves necessárias.

Sempre fico muito irritada quando o cinema decide passar trailers de terror antes de qualquer filme. E sempre me recuso a assistir a esses trailers também. É meu protesto silencioso. Olho pro lado, fecho os olhos, tapo os ouvidos, essas coisas bem adultas. Porque fique o senhor sabendo, seu Cinema, que eu não sou obrigada a passar por isso não. Fique você aí sozinho com seus trailers-de-filmes-de-terror-que-eu-jamais-vou-ver enquanto eu não tô ouvindo nada, não tô ouvindo nada, lá-lá-lá-lá-lá. Bem adulta. Bem madura.

Enfim, nem era isso que eu ia contar, mas agora já contei.

Estávamos no cinema pra ver um filme que não era de terror e passou o trailer de Um Lugar Silencioso (A Quiet Place, 2018). Desnecessário, pensei comigo, enquanto estava de olhos fechados. Pra que fazer um filme desses, né? Pra quê?, continuei a conversa silenciosa (não sou maluca de ficar falando sozinha no cinema) que estava tendo comigo mesma naqueles minutos intermináveis em que não abria o olho por motivos de trailer-de-filme-de-terror-sem-aviso-na-tela.

Uns dias depois, Renan soltou a reclamação. Nem sei quanto tempo faz que não vejo um filme de terror no cinema, disse. Eu, mais do que depressa, pegando no ar onde aquela conversa poderia dar, emendei dizendo que devia ser desde quando a gente ia ao cinema juntos. Eu não vejo filmes de terror. Nem fora do cinema, nem no cinema. É é um imperativo categórico da minha vida.

Como todo imperativo categórico da minha vida, obviamente ele foi descumprido em mais de uma oportunidade. Imperativo categórico é um conceito da filosofia kantiana e, em tese, não deveria ser descumprido dado a sua natureza de princípio, mas melhor a gente nem começar essa conversa agora.

Depois da reclamação pública de Renan, outros cúmplices do plano infalível golpe apareceram. Tudo milimetricamente arquitetado pela quadrilha, que pensou em todos os detalhes, como fica claro como água nessa conversa aqui:

[18:08, 12/4/2018] Renan Rizzardo: Como estamos de ousadia hoje? Pra um cinema 19h50??
[18:09, 12/4/2018] Aroana Machado: TOPO TOPZERA TOPSTER
[18:21, 12/4/2018] Hingrid Barbosa: vamos!
[18:21, 12/4/2018] Hingrid Barbosa: to aqui perto já, não vou nem voltar pra casa.

Quando eu vi, já era tarde demais pra estragar o rolê. Tudo já tinha sido combinado no nível topo-topzera-não-vou-nem-voltar-pra-casa, afinal de contas. Eu sou muito manipulável.

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Ingênua, apelei pra uma conversa sensata com o marido:

[18:22, 12/4/2018] Marta Savi: Eu não quero ver esse filme, ok? Mas fico na livraria
[18:22, 12/4/2018] Marta Savi: Escrevendo
[18:22, 12/4/2018] Marta Savi: Tudo bem

Vocês já podem imaginar como acabou, né? Claro que podem.

Acabou exatamente onde eu imaginei que essa conversa toda poderia dar bem na hora que Renan reclamou. Sou muito manipulável, mas não sou tão supreendida assim quando não estamos falando de trailers de filmes de terror antes de filmes que não são de terror.

É que eu errei na escolha das palavras.

Jamais deveria ter dito “eu não quero ver esse filme”. Gosto tanto de Bartleby, o Escrivão,  a ponto de ter tatuado frase e imagem no braço, mas às vezes parece que não aprendi nada com ele.

bartleby

Não é uma questão de não querer. Mas sim de quebrar seu interlocutor dizendo que você prefere não fazer.

Isso muda tudo. Muda tanto que é conversa pra uma outra sexta.

E tá. Vá lá. É de terror. Mas o filme é bem bom.

Só que foi golpe, sim.

 


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