Você não é todo mundo

Uma vez me envolvi numa polêmica com Joca.

Resolvi abraçar Juliana enquanto ele tava no colo dela. Muito adulta, muito madura. Joaquim deu a letra, bravo: tia Marta, essa é minha mãe.

Corta.

Não costumo falar muito sobre dona Elena.

Bem verdade, de sessenta mil e vinte e oito palavras distribuídas nos setenta e cinco textos – não que eu esteja contando – que já publiquei, não tem quase nada sobre minha mãe.

Acho até que isso a chateia mais do que ela deixa aparecer, mas há uma justificativa.
(sempre há uma)

Minha mãe é revolucionária.

Em muitos sentidos. Talvez em todos os sentidos que a expressão “mãe revolucionária” possa ter. Com certeza, em mais sentidos do que eu posso dar conta.

E a posição que ocupo é ingrata. Tenho uma visão parcial e mesquinha de dona Elena: ela é minha mãe.

Minha mãe. Que permitiu que eu brincasse de Comandos em Ação, me deu um videogame de Natal e deixou que eu jogasse bola com meu irmão no jardim da frente de casa. Que sabia o número da conta dos clientes do Banco mesmo depois de se aposentar, mas uma vez ficou na dúvida quando tentamos fazer um teste sobre meus programas favoritos quando eu tinha uns treze anos.

Minha mãe. Que exigia que eu desse bom dia sorrindo a mim mesma no espelho todo dia de manhã, antes de ir pra aula. E que uma vez estava me esperando, lendo o jornal de domingo no sofá, quando cheguei sete da manhã de uma festa, mesmo depois de jurar de pé junto que jamais ia dar esse tipo de incômodo pra ela.

O Mundo das Ideias tá cheio de exemplos de como dona Elena é enquadrada na categoria minha mãe.

Mas dona Elena nunca foi só minha mãe, nunca foi só mãe dos meus irmãos.

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Ela sempre cultivou outras facetas de si. Nunca se deixou resumir a um único papel, mesmo um tão importante quanto o dela pra gente. E, quando você está no papel de filho, nem sempre isso é fácil de compreender. Você não entende que sua mãe pode ser outra pessoa, também.

Mas depois, quando você assume outros papéis e repensa, algumas coisas são tão entendíveis que você se arrepende de não ter olhado pra elas com mais atenção quando deveria ter feito isso.

Aquele dia, depois de Joca brigar comigo, respondi, como se tivesse completando quatro anos também: Joca, antes de ser sua mãe, ela já era minha amiga.

E constatei uma grande obviedade da vida.

Pois é.

Parece que é real.

Mães não são apenas mães. São pessoas completas. Mães, tias, filhas, amigas, profissionais, esposas, namoradas. Pessoas. Completas.

Primeira sugestão: seja uma pessoa completa. A maternidade é uma dádiva maravilhosa, mas não seja definida apenas pela maternidade. Seja uma pessoa completa. Vai ser bom para sua filha.
(Para Educar Crianças Feministas. Chimamanda Ngozi Adichie)

Que doido.

Você já pensou nisso? Nas outras coisas que definem sua mãe?

Você não é todo mundo. Sua mãe também não é.

 


4 comentários sobre “Você não é todo mundo

  1. … e como toda MÃE, sei que não fui tão boa como deveria ter sido…mas procurei ser a “melhor” dentro das minhas limitações. E, mesmo todos vocês sendo adultos, livres, felizes, independentes, continuam sendo meus maiores tesouros e o meu maior AMOR é de vocês ❤️❤️❤️❤️

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  2. Mamãe sempre soube das coisas.
    Sempre revolucionou.
    E sempre soube passar a mensagem muito bem.
    Tão bem que o que mais queria hoje, como mãe de adolescentes, era ser como ela.
    Mas sou apenas eu, com tudo que ela me ensinou a ser.
    E, thanks Universo (e dona Elena), não sou nem nunca vou ser todomundo.

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