Quem leu esse aqui?

Era agosto de dois mil e sete.

Uma livraria técnica perto da faculdade tava numa promoção daquelas de limpar o estoque pra fechar a loja – acho que a Grande Rede de PDFs começou a fazer suas primeiras vítimas por volta desse tempo.

A Conturbada História das Bibliotecas (Matthew Battles), livro que veio na leva de compras dessa promoção, tem um dos primeiros capítulos que eu mais gosto no mundo. Chama-se Lendo a biblioteca. Sua frase de abertura jamais saiu da minha cabeça – e penso nela toda vez que entro qualquer lugar que tenha muitos livros.

Quando fui trabalhar na Biblioteca Widener, em Harvard, cometi logo de saída meu primeiro erro: tentei ler os livros.

Se eu tivesse escrito esse primeiro capítulo – o que, claro, não fiz – pularia toda a citação que Matthew Battles coloca depois para demonstrar o tamanho do erro que cometeu ao tentar ler os livros. Toda a parte exemplificativa e sensorial sobre como é impossível ler tudo que existe para ser lido, que cresce de acordo com o tamanho do lugar de livros que você entra, essa eu também deixaria para outro momento.

Mas ele, como todo bom autor que já escreveu o livro que estamos lendo, ignorou meus desejos particulares sobre como deveria ter montado seu maravilhoso primeiro capítulo. Continuou assim:

Não demorou muito para repetir-se em mim aquela sensação de vertigem compulsiva descrita por Thomas Wolfe em Of time and the rives, quando Eugene Gant começa a vasculhar as estantes de uma Widener ficcionalmente recriada:
“À noite, ele saía vasculhando as estantes da biblioteca, puxando livros a esmo daquelas milhares de estantes e lendo-os feito um doido. Pensar naquelas estantes intermináveis repletas de livros deixava-o ensandecido – quanto mais lia, mais inumeráveis pareciam ser aqueles que jamais conseguiria ler. […] Lia insanamente, às centenas, aos milhares, às dezenas de milhares. […] A ideia (ele pensava) de que outros livros estavam aguardando por ele atormentava-lhe o coração. Imaginava-se rasgando as entranhas de um livro como se estripa um frango.”

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Tá. Vá lá. É inquestionável o apelo visual desse trecho. O fascínio misturado com o terror de saber que é impossível ler tudo que existe para ser lido só pode ser mais ou menos bem descrito se a gente envolve loucura, megalomania e umas imagens meio nojentas no meio.

E Matthew prossegue, tranquilo, seu primeiro capítulo, sem se abalar com meus questionamentos feitos depois dele ter escrito o livro:

Os exageros de Gant são, na verdade, uma resposta a contradições que qualquer um de nós enfrenta quando está diante de uma biblioteca.

Sim. É isso mesmo!

O leitor vai tocando os livros dispostos nas estantes, levanta-os, sente-lhes o peso, aprecia as letras inclinadas, dispostas numa página de rosto, examina marcas deixadas por outros leitores e, quanto mais os toca, mais fugidio lhe parece o saber ali contido. Todas as coisas que desconhece parecem estar lhe acenando por detrás das capas, nas entrelinhas.

MUITO ISSO! É exatamente assim que eu me sinto, Matthew!

Na biblioteca, o leitor é obrigado a despertar daquele sonho de comunhão íntima provocado pela leitura. Ele é forçado a reconhecer a materialidade do mundo na sucessão interminável de lombadas, no som das páginas virando sobre as mesas, no atrito das capas que se espremem nas prateleiras, e nesse cheiro rançoso que impregna qualquer ambiente em que há livros em grande número.

É! Que agonia, né?

Por isso que acho mesmo que é preciso dizer várias vezes que é impossível ler tudo que existe para ser lido.

Tipo várias vezes. Mesmo:

Mas a biblioteca – especialmente uma tão vasta – não é um mero repositório de curiosidades. É um mundo a um só tempo completo e incompletável, cheio de segredos.

E Matthew vai reforçando isso no decorrer de seu primeiro capítulo até chegar na observação que deveria ter começado tudo, segundo a melhor opinião minha mesmo.

É uma óbvia constatação:

Sempre que jogava Detetive achava um desperdício que o Coronel Mostarda não pudesse ter cometido o assassinato na biblioteca com um livro.

É engraçado. Quando a gente lê algo assim, que lembra ter pensado antes.

É como se você estivesse naquela primeira conversa com uma pessoa que acabou de conhecer e perguntasse a ela seu signo. Dentro da sua cabeça você já destacou algumas características que podem enquadrar aquela nova pessoa em áries, leão ou sagitário, mas não falou. E aí ela responde dizendo que é exatamente do signo que você imaginou que ela seria. Você perdeu essa janela. Se tivesse dito, seria incrível. Mas dizer, agora, que você pensou antes, não dá. Ninguém vai engolir isso não (principalmente se for dos signos de fogo).

Mas, mesmo assim, preciso dizer: levo jogos de tabuleiro muito à sério e Detetive era um dos meus favoritos. Sempre queria que o crime tivesse acontecido na Biblioteca – e odiava a Sala de Música. Mas nenhuma das armas do crime no jogo fazia sentido naquele ambiente. Castiçal, cano, chave inglesa, corda, revólver, faca. Não. Quando você vai matar alguém na biblioteca, você tem tantas opções melhores!

Afinal, você já pensou em quantos livros existem no mundo?

Em uma rápida pesquisa – que nem pode ser chamada assim de pesquiiiiisa – no Google, eu descobri que, em seis de agosto de dois mil e dez, existiam cento e vinte nove milhões, oitocentos e sessenta e quatro mil oitocentos e oitenta livros no planeta. Diferentes entre si, sem contar as cópias de cada um deles. Isso foi há quase oito anos. De acordo com minha própria matemática, esse número deve ser ridiculamente maior no dia de hoje.

E, diante disso tudo, Matthew continua fazendo todo sentido, lá no primeiro capítulo:

Quando estou diante das estantes de uma biblioteca (desta ou de qualquer outra), tenho a impressão de que os milhões de volumes que ali se encontram podem, de fato, conter a totalidade da experiência humana e que eles não constituem um modelo para o universo, mas sim do universo.
(…)
Penso aqui numa passagem de Stéphane Mallarmé, que foi quem melhor expressou aquilo que sinto numa biblioteca, ao escrever que “tudo no mundo existe para, algum dia, terminar num livro”.

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Concordo. Com tudo.

E, mesmo assim, mesmo sabendo de tudo isso, dessa quantidade imensa de livros que existem e da incapacidade material de lermos o suficiente para chegar perto de qualquer relevância dentro dessa conta absurda. Mesmo assim, sabendo que é impossível ler tudo que existe para ser lido.

Mesmo assim.

Cada vez que eu não li o livro que menciona aquela pessoa que pergunta “quem leu esse aqui?”, não consigo evitar um pensamento: de que sou a única pessoa no universo inteiro que não leu aquele lá.


3 comentários sobre “Quem leu esse aqui?

  1. Ah, amei esse texto e fiquei meio triste pq não li esse cara que fala isso da biblioteca. Mas li o “manifesto” da Chimamanda por causa do seu outro post e emendei com “Americanah”. e,tipo, onde é que eu tava todo esse tempo?
    eu fiquei uns 5 anos sem ler livros. Fiquei bem doente e perdi o interesse por tudo que eu gostava. Mas não foi tempo perdido pq eu tava vivendo antes uma ansiedade horrível e isso tinha tb uma pouco a ver com todo mundo já leu e eu não, tá todo mundo no mestrado e eu no primeiro livro de Proust. Daí eu adoeci, perdi o interesse por tudo e ao mesmo tempo ganhei um interesse novo. Mudei pruma cidade de 5 mil habitantes e tava lendo a vida, as pessoas…tava sabendo tudo sobre o tempo, plantações etc. Foi bom. Agora, bem melhor, eu voltei a gostar de ler…a cobrança não chega a ser tão grande. Não fiz o mestrado. Não sei se vou fazer. Se der, deu. Enfim, mas eu até que gosto de ter esse sentimento na biblioteca…pq sei, no fundo, que ele sempre vai existir, mas que não é o fim do mundo…eu acho que tô aproveitando esse espaço aqui até pra falar isso pra mim…Enfim, gostei!!!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Eu fiquei muito emocionada, isso sim, com esse comentário.
      Às vezes (mais conhecido como sempre!) a gente escreve as coisas sem ter ideia de como elas vão bater nos outros – e pra mim isso é um obstáculo grande na hora de colocar qualquer texto pra fora.
      Mas esse comentário, que conseguiu condensar tudo que eu quis dizer com o que eu disse, foi tão importante pra mim que nem sei dizer. Só um agradecimento sem fim por você ter vindo aqui, falar!
      Esse espaço é pra falar da gente mesmo, de toda essa pressão invisível que faz a gente questionar o que não leu e os cursos que não fez. Falar desse sentimento que, quando a gente olha com atenção mesmo, não faz sentido, porque a verdade é que você tem razão: ele sempre vai existir e esse não é o fim do mundo.
      Obrigada por dividir um pouco do que você sentiu, e obrigada por me ouvir aqui!
      Que bom que você gostou!
      ❤️

      Curtido por 1 pessoa

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