Não esqueça a Toalha

Antes de partir para Cambridge, Douglas Adams se envolveu com uma série de trabalhos que serviriam para descrevê-lo nas orelhas e contracapas de seus livros posteriormente.
(Não Entre Em Pânico: Douglas Adams & O Guia Do Mochileiro Das Galáxias, Neil Gaiman – seu destaque adicionado em: domingo, 21 de janeiro de 2018 09:21:38)

É.

Os dispositivos de leitura são capazes de guardar com precisão de segundos o momento em que você fez um grifo eletrônico no texto. Há uma lista de coisas que desgosto em livros digitais, mas esse detalhe me deixa fascinada.

E, de todos os trechos que grifei nessa biografia de Douglas Adams, o que abre o texto de hoje é o que mais me deixou encucada.

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Sou uma leitora atenta, apegada aos detalhes. Inclusive esses detalhes de orelhas e contracapas. Sou, sobretudo, uma leitora atenta das obras de Douglas Adams, caso vocês nunca tenham notado.

E sabia que jamais tinha visto qualquer descrição de Douglas que envolvesse trabalhos não ortodoxos – como os de guarda-costas de uma família árabe do ramo de petróleo e limpador de galinheiros – nas orelhas de seus livros. Ainda que trabalhar como guarda-costas de uma família árabe do ramo do petróleo e limpador de galinheiros combine de uma forma assustadora com a personalidade de Douglas, essas informações jamais tinham aparecido nas orelhas de seus livros.

É que as orelhas dos livros de Douglas publicados por aqui, ainda que apresentem uma variaçãozinha tênue, trazem sempre a mesma informação:

Adams nasceu em Cambridge, Inglaterra, em 1952 e faleceu aos 49 anos, em 2001.
O Guia do Mochileiro das Galáxias (edição de 2004, Sextante)

Douglas Adams nasceu em Cambridge, Inglaterra, em 1952 e faleceu aos 49 anos, em 2001.
O Restaurante no Fim do Universo (edição de 2004, Sextante) 

Adams nasceu em Cambridge, Inglaterra, em 1952 e faleceu aos 49 anos, em 2001.
A Vida, o Universo e Tudo Mais (edição de 2005, Sextante)

Adams nasceu em Cambridge, Inglaterra, em 1952 e faleceu aos 49 anos, em 2001.
Até Mais e Obrigado pelos Peixes (edição de 2005, Sextante)

Adams nasceu em Cambridge, Inglaterra, em 1952 e faleceu aos 49 anos, em 2001.
Praticamente Inofensiva (edição de 2006, Sextante)

Adams nasceu em Cambridge, Inglaterra, em 1952 e morreu em 2001.
O Salmão da Dúvida (edição de 2014, Arqueiro) 

Adams nasceu em Cambridge, Inglaterra, em 1952 e morreu aos 49 anos, em 2001.
Agência de Investigações Holísticas Dirk Gently (edição de 2015, Arqueiro)

As aventuras de seu detetive irônico se iniciam em Agência e, infelizmente, têm seu fim num dos textos do livro O Salmão da Dúvida, com a morte de Adams aos 49 anos, em 2001.
A Longa e Sombria Hora do Chá da Alma (edição de 2016, Arqueiro)

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Parece que as editoras que publicam sua obra preferem frisar que Douglas nasceu em 1952 e morreu em 2001. E tudo bem. Não tá errado.

James Wood, que anda sendo meu socorro em vários departamentos, acerta na mão para descrever como deve ter sido a reunião entre os editores que aprovaram as orelhas das capas de todos esses livros:

Fui recentemente ao funeral de um homem que eu nunca tinha encontrado. Era o irmão mais novo de um amigo meu e tinha morrido jovem, deixando a mulher e duas filhas novas. O anúncio do funeral trazia uma fotografia acima das datas limites (1968-2012). Ele parecia incrivelmente jovem, cheio de vida – os olhos semicerrados por causa do sol forte e sorrindo levemente como se estivesse começando a entender a piada de alguém. De alguma maneira terrível, sua morte foi o fato notável, heroico de sua curta vida; todo o resto era banalidade alegre usual, testemunhada por vários oradores.

 Mas James Wood não termina aí não. Ele me dá o gancho perfeito, mesmo que eu nunca tenha pedido isso a ele:

Como costuma ser o caso nessas celebrações finais, os oradores esforçavam-se para dilatar e apreender situações agradavelmente banais de uma vida, para preencher as datas entre 1968 e 2012, de modo que pudéssemos sair da igreja pensando não na primeira nem na última data, mas nos minutos não datados entre elas.
(I. Por quê? A Coisa Mais Próxima da Vida. James Wood)

Não posso fazer nada quanto a decisão das editoras, é verdade.

Mas, ao contrário das orelhas dos livros que tenho aqui, prefiro pensar que talvez, assim quem sabe, nesse meio tempo entre suas duas datas, Douglas tenha vivido.

Vivido para ter trabalhado como guarda-costas de uma família árabe do ramo do petróleo. Para ter sido limpador de galinheiros e porteiro de um hospital psiquiátrico enquanto ainda estava no colegial. Vivido para dizer que sempre preferia já ter escrito um livro do que ter que escrever um. Para repetir para si mesmo, cada vez que tinha um bloqueio de escritor, que tinha, uma vez, tirado um dez numa redação da escola.

Vivido para encher com coisas – banais, incríveis, geniais, não ortodoxas, complexas, alegres, tristes – a linha entre 1952 e 2001.

E hoje é vinte e cinco de maio. Desde 2001, é dia de celebrar a vida de Douglas Adams carregando por aí uma toalha, o item mais valioso da bagagem de qualquer mochileiro. Valioso, claro, por sua praticidade para quem viaja pela Galáxia e precisa, por exemplo, de “um agasalho quando atravessar as frias luas de Beta de Jagla”.

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Mas a toalha é mas muito mais importante por seu valor psicológico. Diz o Guia que:

Por algum motivo, quando um estrito (isto é, um não-mochileiro) descobre que um mochileiro tem uma toalha, ele automaticamente conclui que ele tem também escova de dentes, esponja, sabonete, lata de biscoitos, garrafinha de aguardente, bússola, mapa, barbante, repelente, capa de chuva, traje espacial, etc., etc. Além disso, o estrito terá prazer em emprestar ao mochileiro qualquer um desses objetos, ou muitos outros, que o mochileiro por acaso tenha “acidentalmente perdido”. O que o estrito vai pensar é que, se um sujeito é capaz de rodar por toda a Galáxia, acampar, pedir carona, lutar contra terríveis obstáculos, dar a volta por cima e ainda assim saber onde está sua toalha, esse sujeito claramente merece respeito.
(Capítulo 3. O Guia do Mochileiro das Galáxias. Douglas Adams)

Então não há dia melhor do que hoje para preferir pensar que essa linha entre 1952 e 2001 – marcos que as editoras arbitrariamente resolveram salientar em suas orelhas de livro – foi bem preenchida. Tão bem preenchida a ponto de ser possível sair da igreja – mesmo que o funeral de Douglas, ateu convicto, não tenha acontecido numa igreja! – pensando nos minutos não datados entre elas.

Tão bem preenchida a ponto de fazer a gente lembrar, durante todos os dias da nossa própria linha, de não esquecer de onde está a nossa toalha.

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