Tristeza e Alegria na Vida das Girafas

Curitiba, 03 de abril 08 de junho de 2018

Caro Tiago Rodrigues,

Não sei bem porquê resolvi começar uma carta.

E confesso – toda carta tem lá seu quê de confissão, né? – que eu não sei bem (leia-se: não faço a menor ideia) quem você é. E é engraçado, isso. Não ter a menor ideia de quem é a pessoa por trás da leitura. Escrever, é, no fim das contas, mandar um pedaço nosso, não é? É isso que a sua personagem menina, com seus nove anos, aprende em Tristeza e Alegria na Vida das Girafas.

Quem sabe, depois de terminar a primeira versão dessa carta eu vá procurar conhecer você – saber se você é, de fato, o melhor pronome de tratamento. Saber, quem sabe, se você está vivo. Mas, por hora, não. Essa é minha oportunidade de sentir algo parecido com o que sentia Hanna Schmitz enquanto Michael Berg lia livros para ela:

Como ela não sabia nada sobre os autores, supunha que eram contemporâneos, a não ser que algo indicasse que isso era impossível. Eu ficava assombrado com o quanto a literatura mais antiga de fato pode ser lida como se fosse atual, e quem não sabe nada sobre a história pode ver, nos costumes de tempos antigos, simplesmente costumes de regiões distantes.
(O Leitor, Bernhard Schlink)

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Não sou uma pessoa que vai ao teatro. Fruto do meu tempo, sou bem mais adepta de cinema. De efeitos visuais, tiros e explosões. E da prosa, não gosto muito de outras formas de narrativa – fã de Harry Potter, detestei o roteiro de Criança Amaldiçoada.

Enfim. Não sei se numa carta a gente precisa gastar tanto tempo falando de si assim, mas é uma coisa que eu acabo fazendo. É um pouco pra justificar, claro. Sempre é.

Renan, meu marido, ganhou ingressos pro Festival de Teatro de Curitiba desse ano. Poderíamos escolher qualquer peça – e eu abri o programa sem a menor ideia de como se escolhe uma peça de teatro pra ver. Não sou do teatro. Não sei ser do teatro.

Li algumas sinopses, me interessei por alguns temas, mas sempre com um pé atrás. Será que vou aguentar esse tempo todo de espetáculo? Será que não é arte demais pra mim? Será que não é melhor a gente nem ir? Quem sabe passar esses ingressos pra quem saiba o que tá fazendo?

Escolhi sua peça por causa do nome.

Não sou muito de fazer isso, sabe. Assim, de cabeça, lembro de mais uma escolha dessas. Um livro. Tópicos Especiais em Física das Calamidades. Devo ter um fraco por nomes longos e específicos.

Na sinopse, dizia que a história se passava nas ruas de Lisboa. Só soube que a peça seria encenada em francês – com legendas – quando já estava no caixa, trocando os vouchers por ingressos do espetáculo. O rapaz que atendeu a gente fez o alerta, até um pouco alarmado. Quase desisti. Uma peça em francês. Já não aguento muito nem filmes em francês, que dirá uma peça. Mas se bem que… Não. Melhor não.

Fiquei tempo demais na dúvida. Gente que atende no caixa não tem muita paciência pra quem chega ali ainda com dúvidas quanto aos itens que escolheu, mesmo quando precisa fazer o aviso de que aquele item tem uma surpresa do tipo ser em francês com legendas. A troca foi feita enquanto eu ainda pensava se era uma boa ideia ou não.

Ainda bem.

Ir ao teatro, quem diria, foi uma das experiências mais legais que tive nos últimos tempos.

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Do nosso lugar – que precisamos mudar no começo do espetáculo para poder ler melhor as legendas – a gente viu uma menina muito pequena, mas muito grande ao mesmo tempo. Viu dilemas pontuais e difíceis – como saber se os cartógrafos falam mesmo a verdade ou não (chuto que não!) – encarnados de um jeito encantador.

A experiência que achei que seria a principal – ter ido ao teatro ver uma peça encenada em francês com legendas – foi superada pelo texto. Fui ao teatro ver uma menina pequena demais pra isso lidando com luto, recessão econômica e projetos de escola de um jeito muito singelo e muito particular. De um jeito que falou comigo como nenhuma peça antes (ou depois, arrisco dizer) vai falar.

Tô terminando agora essa segunda versão de carta, Caro Tiago. Não vou pesquisar nada sobre você, por hora. E, me perdoe se não for o caso, mas vou continuar usando você como pronome de tratamento. Sua peça – mesmo traduzida do português de Portugal para o francês pra ser vista com legendas aqui, do outro lado do Atlântico – me fez sentir que podemos conversar assim, como se a gente já se conhecesse, mesmo que a gente não faça a menor ideia de quem o outro é.

Obrigada,

Marta


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