Mercadinho

Nos dias que meus pais não dão sossego, eles começam bem cedo. Dona Júlia pega no meu pé por causa da leitura atrasada para a faculdade antes do café e seu Roberto insiste que eu preciso voltar ao Instituto pelo menos uma vez por semana. Aí eu escapo.

– Mãe, pai, vou descer, acabou o leite. – Ser cego tem lá suas vantagens. Se você for rápido o bastante, e eu sou, pode usar a cegueira pra não achar aquele litro de leite que você sabe que seus pais estocam no primeiro andar do armário de secos e sair antes que eles avisem que não acabou o leite não.

Na esquina do apartamento tem um mercadinho. Gosto de lá. As coisas não mudam de lugar. Tá tudo sempre nos mesmos corredores. Não preciso nem atravessar a rua e o piso tátil da calçada é quase bom. Não termina em uma mureta, como aquele no calçadão do centro.

E tem José, no turno da manhã.

– Bom dia, Tiago! – É sempre assim que sei que cheguei. Funciona melhor do que qualquer bengala que eu já tenha experimentado no Instituto.

Gosto do tom de voz de José. É macio, suave. José tá sempre falando com sorriso. Ele deve ser mais ou menos da minha altura e ter mais ou menos a minha idade.

– Bom dia, Zé!

– Sozinho hoje?

– É. Só vim comprar leite. – E falar com outras pessoas fora a dupla dinâmica que ficou lá em cima, também, completo pra mim.

José não me trata como um idiota. José não faz perguntas óbvias, daquelas que irritam qualquer cego, nem que ele tenha perdido a visão há meia hora. José sabe que não enxergo, mas que escuto muito bem, e não fala mais alto comigo.

José sempre me pergunta como está meu dia e eu sempre pergunto como está o dele. Às vezes nossas conversas acabam aí, às vezes não. José trabalha no mercadinho há uns dois anos, eu acho. Eu já sei que ele largou o colégio pra ajudar em casa e que o mercadinho não paga bem, mas também não paga mal. Sei que sonha em estudar administração. E sei que gosta de carros rápidos e que sua comida favorita é hambúrguer mal passado, sem tomate.

José sabe que eu detesto estudar administração e não como carne. Sabe que às vezes quero fugir de casa porque meus pais me tratam como se eu ainda tivesse oito anos, mas também sabe que eu não posso reclamar muito dos velhos. José sempre me pergunta sobre a faculdade e tem curiosidades sobre minha vida de cego. Uma vez, José me perguntou como era sonhar.

No corredor três do mercadinho, tateio os produtos até achar a embalagem do leite integral. Acho que hoje é um dos dias em que a gente não conversa muito depois da pergunta de como está o dia. Eu saí bravo de casa e nem o bom dia de José pode amenizar direito. Acontece.

– Tiago, achei muito legal essa camiseta, como você decidiu comprar? – José já tinha me perguntado sobre a escolha de roupas em casa, mas nunca tinha perguntado nada sobre as compras.

– É a textura. – Disse, menos mal-humorado. – Olha – coloquei a mão na figura de Wally que ia naquela camiseta – o tecido é diferente e eu sei o que é o desenho. Mas esse personagem não faz muito sentido pra mim. – Assumi, com a certeza de que José devia saber bem mais sobre Wally do que eu.

– Nem pra mim. – José falou um pouco mais baixo, parecia envergonhado. – É de algum desenho? Deu 7,55. – Emendou com o preço, enquanto colocava os dois leites na sacola.

– Não que eu saiba. Meu pai me explicou que é um jogo de achar o personagem numa página cheia de informação visual. Ele tá sempre vestido igual, mas acaba se confundindo com as outras imagens. Eu só gostei porque ele tem uma bengala. Essa é de dez, né? – Pagar a conta sozinho só é um momento quase sem tensão no mercadinho, de manhã.

– É sim. – Ouvi o barulho da gaveta do caixa abrir e José mergulhar a mão nas moedas. – 2,45, aqui. – José já sabe que eu não consigo aprender direito o tamanho das notas e sempre que pode, me dá o troco todo em moedas.

Na esquina do apartamento tem esse mercadinho. Gosto dele. As coisas não mudam de lugar. E tem José, no turno da manhã.


3 comentários sobre “Mercadinho

    1. Enquanto eu fazia a pesquisa pra escrever esse conto, essa foi uma das maiores reclamações nas entrevistas que vi. É muito estranho! Isso também acontece com meu pai, por exemplo. Porque ele não fala, as pessoas costumam falar muito alto com ele também.
      Será que tem uma explicação pra isso?

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s