irmãos imaginários

Uma sombra passou por um momento.
— Abandonado por um elevador — murmurou Zaphod, que estava se sentindo bem pra baixo.
Os dois olharam em ambas as direções.
— Sabe de uma coisa? — disse Zaphod a Marvin.
— Mais do que você pode imaginar.
(O Restaurante no Fim do Universo, Capítulo 6. Douglas Adams)

Aconteceu num sábado. Num sábado, não. No sábado do aniversário do meu pai. Uma coisa dessas não poderia acontecer num dia qualquer.

Eu e meu irmão conversamos pela primeira vez.

Tendo passado a vida inteira como caçula, ser mitológico que nunca cresce, não aprendi direito a lidar com conversas adultas que tenho com meus irmãos. Pedro, capricorniano, ser mitológico que precisa de tudo explicado, comprovado e cientificamente demonstrado, não aprendeu direito a lidar com gente que acredita em mapa astral como justificativa para coisas que acontecem no mundo real.

Essa nossa conversa começou como tantas outras. As perguntas que meu irmão resolveu fazer pra mim são quase um clichê. O que tá acontecendo com você? Por que você não quer mais as coisas que você queria antes? Qual é o seu plano? Você pode me explicar o que vai fazer depois? Você não acha um desperdício isso que você tá fazendo?

Fiquei triste por antecipação. Ansiosa, já sabia como terminaria o papo. Era ali mesmo que ele queria ir? Poxa. A gente podia falar de tanta coisa! Mas, sem saber dizer não, comecei a responder.

Aí que aconteceu a coisa mais estranha que poderia ter acontecido. Pedro me ouviu. Não apenas me esperou falar para depois voltar a dizer coisas. Pedro me ouviu. Quando não entendeu algo que eu disse – como assim você não recebe por isso? – perguntou de novo.

Não concordou com quase nada, é verdade. Nossa, velho, que papito isso que você tá falando, Martinha! A gente encara o mundo de jeitos bem diferentes, mesmo que tenhamos sido criados pelas mesmas pessoas. Tudo bem, eu entendi, mas você não me convenceu. E sacou quando eu optei por não por elencar um atrás do outro numa sequência lógica argumentos práticos e técnicos capazes de justificar minhas razões. Você não tá nem tentando, né? Não tô. Mas por quê?

Nunca ninguém tinha chegado aí. Coube ao meu irmão fazer essa pergunta.

Pedro mora longe, num estado que mais parece outro país, há quase quinze anos. Pedro é médico veterinário, servidor público e professor universitário. Pedro sabe usar o excel como ninguém e é a pessoa mais correta que eu conheço. Pedro é tão racional que chega a doer. Foi goleiro e jogava bola comigo quando eu era criança. Pedro ouve música sertaneja desde que me entendo por gente – e uma das melhores memórias que tenho dele é sua participação num show de talentos do colégio, cantando absolutamente desafinado (foi mal, aí, Prefe) um sucesso de alguma dupla sensação da década de noventa. Pedro ama pudim de leite e feijão mexicano, não consegue acompanhar os stories no Instagram e não vê o menor sentido em Harry Potter ou Guia do Mochileiro das Galáxias. E Pedro vai ficar sem entender as razões que me levaram a escolher a citação que abre esse texto, mesmo que eu diga que é minha parte favorita desse livro e talvez uma das conversas que eu mais ame em toda a história do Universo.

Mas ali, no sábado do aniversário do pai, a gente foi passando por tudo isso. A gente discordou em muitas coisas, mas também concordou. Encontrou semelhanças no nosso pensamento, mesmo que o dele tenha sido construído com referências que nada tenham a ver com as que construíram o meu. Quando a gente falou de responsabilidade profissional, ele alertou com um discurso muito sério e centrado sobre os perigos da vaidade. Ele é a pessoa mais correta que eu conheço, mesmo. Eu citei Gandalf. Mas a gente tava dizendo a mesma coisa.

É que quando a gente tira todas as camadas que separam nossos discursos, eles são iguais.

avel-chuklanov-686812-unsplash


5 comentários sobre “irmãos imaginários

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