Marta do Futuro

Oi,

Sabe, eu escuto muito sobre você.

Sobre essa pessoa que você é, aí, no Futuro. E quero muito ser você logo. Tem gente que vive pensando em coisas que diria hoje pra quem já foi no passado, eu penso muito em coisas que eu quero dizer pra você, Marta do Futuro.

Você parece ser uma pessoa tranquila. Em paz com as coisas que aconteceram com você. Sempre que me falam de você, é de um jeito doce, como se, ao olhar pra mim, a Marta de Agora, vissem você. Sorrindo, calma, quase consternada, mas com compreensão. Afinal, você lembra de como era ser eu hoje.

Daí do Futuro, você já deve saber que todo esse furacão que acontece hoje só foi esse furacão todo porque tá acontecendo agora. Aí, no Depois, ele era só uma marolinha. Sábio Douglas, que disse que o maior problema das viagens no tempo era escrever sobre ele.

O problema maior é simplesmente gramatical, e a principal obra a ser consultada sobre esta questão é o tratado do Dr. San Streetmentioner, o Manual das 1001 Formações de Tempos Gramaticais para Viajantes Espaço-Temporais. Nesse livro você aprende, por exemplo, como descrever algo que estava prestes a acontecer com você no passado antes que o acontecimento fosse evitado quando você pulou para a frente dois dias.”
(O Restaurante no Fim do Universo. Capítulo 15)

Será que você, aí no Futuro, ainda relaciona quase tudo que acontece na sua vida com algum trecho do Guia? Tomara que sim. Daqui, do Presente, quando faço isso as coisas que acontecem na minha vida ficam um pouco menos intensas – e você sabe como eu, daqui do Presente, posso ser way too intense, né?

Claro que você sabe.

É por isso que você sorri consternada quando lembra de mim. Certeza. Dead sure.

É engraçado. Esse Futuro. A gente tem essa relação estranha com o futuro. Tem esse soft spot. Bom, eu, de hoje, tenho. Será que você também já superou isso aí, no Futuro? Eu tô sempre com a cabeça aí, um passo na frente do que posso ir. Querendo saber o que ainda não sei. De um lado contemplando o outro, como disse o Homem Sobre o Poste, no Capítulo 9 de Praticamente Inofensiva.

– Uma casa de praia – disse – nem mesmo precisa estar na praia. Embora as melhores estejam. Todos nós gostamos de nos congregar – prosseguiu – em condições limítrofes.
– É mesmo? – perguntou Arthur.
– Onde o solo encontra a água. Onde a terra encontra o ar. Onde o corpo encontra a mente. Onde o espaço encontra o tempo. Gostamos de estar de um lado contemplando o outro.
(O Homem Sobre o Poste. Praticamente Inofensiva. Capítulo 9)

Mas será que essa sua tranquilidade, essa mesma que todo mundo que te vê enxerga, não vem do fato de você não pensar mais no seu futuro? Ou quem sabe você precise ser tranquila assim pra pensar no passado e me ajudar agora, né? Vá saber. Vou saber. Espero. Espero saber logo.

Marta do Futuro, quando a gente vai se encontrar? Podemos combinar de ser logo? Você lembra, né? De como eu posso ser ansiosa? O que você acha da gente combinar de se ver ainda esse mês?

Dá uma olhada aí, na sua agenda. E me avisa.

Marta de Hoje

samuel-zeller-158996-unsplash.jpg


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