tipo as pessoas, pensei

A ansiedade tem jeitos peculiares de aparecer na minha vida.

Um dos gatilhos mais curiosos é a compra de bananas.

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Não sei diferenciar tipos de banana, devo ter faltado essa aula. Ouro, prata, maçã, caturra, nanica. Sei que existem. E cada vez que vou comprar um cacho presto muita atenção na etiqueta, mas não consigo ver as diferenças. São informações que não grudam no meu cérebro.

E aí, por saber-não-saber o tipo de banana que coloquei no carrinho, carrego comigo essa ansiedade específica: me sinto enganada toda vez que chego no caixa. O valor do quilo nunca é o valor da promoção que peguei lá na frutaria. E sempre tenho ganas de argumentar que quando peguei tava um preço menor, construo três dias de razões no Mundo das Ideias e aí nada. Silêncio. Risos amarelos. Sim, tenho cartão do estacionamento. Afinal, não sei diferenciar uma banana da outra e, certeza, devo ter pegado a errada mesmo.

Penso sempre. Nunca falo. Melhor. Nunca falava.

Esses dias, enquanto passava as frutas me senti segura o suficiente pra falar pra moça do caixa que não sabia que tipo de banana era aquela.

É fácil. Cada tipo de banana tem uma característica, ela disse, cheia de paciência. Tipo as pessoas, pensei. E escutei, atenta. A prata tem essa pontinha aqui, tá vendo?, e mostrou o cacho que eu tinha escolhido. A casca da caturra termina bem onde termina a fruta, ela emendou, apontando a foto na tabela de códigos. A nanica não tem erro, né? É a pequenininha. Ri. De nervoso. Esse nome não é uma pegadinha? Sempre achei que era, disse. Tipo as pessoas, pensei.

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Uns dias depois, me vi envolvida num intenso debate sobre eventos definitivos, transitórios e despedidas. É engraçado como tô sempre envolvida nuns debates muito intensos sobre as coisas, até as mais simples, pensei. E ao mesmo tempo, pensei nos tipos de bananas. E nos tipos de pessoas. Cada banana tem uma característica, repeti pra mim a lição da moça do caixa. E cada tipo de pessoa lida de um jeito com a vida.

 

O caminhão de pensamentos sobre tipos de banana e tipos de pessoa e sobre debates intensos sobre todas as coisas, tudo isso tava acontecendo ao mesmo tempo em que eu pensava até que ponto deveria ir naquela conversa que acontecia ali. As pessoas envolvidas estavam concordando em um tópico e eu só queria discordar.

Mas a gente precisa identificar de que jeito o tipo de pessoa a gente é lida com a vida, pensei. E, na espiral interminável de pensamentos, concluí (risos) que a gente precisa fazer as pazes com isso. Ainda deu tempo de pensar que essa reflexão talvez possa fazer/tenha feito orgulhosa a Marta do Futuro. Dá até pra arriscar dizer que pode ter sido essa a lição que a Marta do Futuro aprendeu de um jeito definitivo lá, no Futuro. E que é por isso que ela é tão tranquila lá.
(mas isso é só um chute)

É isso mesmo, pensei. Eu sou uma pessoa muito intensa, vivo as coisas, disse. Até as mais simples delas, continuei no Mundo das Ideias. Renan, por exemplo, adora dizer que tenho uma teoria até pra andar três quadras. E tenho mesmo. São tantos jeitos de andar três quadras que, nossa, nem sei por onde começar.

Só que durante boa parte do tempo, costumo me repreender por ser essa pessoa. Nada a ver, Marta, brigo comigo – passo muito mais tempo do que devia brigando comigo. Tudo exagero isso aí, nada disso tá acontecendo de verdade, tá tudo só no Mundo das Ideias. Você que tá imaginando isso, que vê o mundo de um jeito muito árduo. Sossega. Sossega aí seu facho.

Durante boa parte do tempo, fico tentando me colocar numa casca de banana que não me serve. Faço esforços ridículos para parecer blasé, para ser a pessoa que diz “isso também vai passar”, para exprimir um quê de indiferença que apenas não me pertence.

Mas aí, sábias palavras da moça do caixa. Cada tipo de banana tem uma característica. E não posso ter uma casca que não caiba aqui na minha fruta.

 

E isso não tem, em absoluto, nada a ver com os outros tipos de banana ou outros tipos de pessoas. Tem a ver comigo. Se eu sou essa pessoa intensa, que teoriza três vidas inteiras em um intervalo de quase nada e que sente um caminhão de coisas ao mesmo tempo, que fica pensando em cascas de banana, em tipos de pessoas e em coisas que são definitivamente definitivas ainda que não sejam, eu sou essa pessoa. Minha casca precisa estar de acordo com meu tipo de banana.

Tentar ser uma pessoa diferente dessa só vai me demandar mais esforço.

Não é?

Não sei. Achei que fez sentido.
(mas ainda não comprei bananas de novo depois de tudo isso)

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2 comentários sobre “tipo as pessoas, pensei

  1. Aqui só tem um tipo de banana pra comprar no mercado, deve ser por isso que a maioria as pessoas daqui são muito menos complexas e sentem muito menos….saudades das possibilidades de bananas e de quem teoriza sobre elas 💙

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