As Cidades Invisíveis

Você deve saber melhor do que ninguém, sábio Kublai, que jamais se deve confundir uma cidade com o discurso que a descreve. Contudo, existe uma ligação entre eles.
(As Cidades e os Símbolos 5. As Cidades Invisíveis. Ítalo Calvino)

Ganhei As Cidades Invisíveis há exatos doze anos.

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Em Maurília, o viajante é convidado a visitar a cidade ao mesmo tempo em que observa uns velhos cartões-postais ilustrados que mostram como esta havia sido.
(As Cidades e a Memória 5. As Cidades Invisíveis)

Lá, gostava de me julgar uma pessoa madura. Achava que, ao contrário dos meus pares, jovens irresponsáveis que não se preocupavam com o futuro, já tinha características de gente grande.

Inúmeras evidências apontam o contrário, é claro. Nenhuma delas é o teste fundamental do Buzzfeed – você já é adulto ou tá só fingindo? – mas são boas evidências. E uma das provas irrefutáveis é esse livro.

O olhar percorre as ruas como se fossem páginas escritas: a cidade diz tudo o que você deve pensar, faz você repetir o discurso, e, enquanto você acredita estar visitando Tamara, não faz nada além de registrar os nomes com os quais ela define a si própria e todas as suas partes.
(As Cidades e os Símbolos 1. As Cidades Invisíveis. Ítalo Calvino)

O livro foi presente de um amigo peculiar, que sempre me pareceu meio deslocado no tempo, como se tivesse saído de uma Farsa escrita no fim do medievo por Gil Vicente. Ele escreveu uma dedicatória na folha de rosto. A caligrafia desenhada foi posta ali, letra por letra, com uma caneta tinteiro.

Com dezoito anos, não entendi uma palavra daquela dedicatória.

As Cidades Invisíveis

Comecei a ler. Mas meu interesse foi minguando.

Com aquele pensamento que só gente com dezoito anos – físicos ou metafísicos – é capaz de ter, achei mesmo que aquele era um livro que falava de cidades. De relatos de viagens exploratórias feitas pela Ásia do meio do século treze. Das figuras históricas de Marco Polo e Kublai Khan.

Não li sobre a gloriosa cidade de Clarisse.

Diversas vezes decaiu e refloresceu, mantendo sempre a primeira Clarisse como inigualável modelo de todos os esplendores, (…) e não mais porque ainda podiam servir para alguma coisa, mas porque por meio deles seria possível reconstruir uma cidade sobre a qual ninguém sabia mais nada.
(As Cidades e o Nome 4. As Cidades Invisíveis)

Não li sobre Irene, que muda a medida que nos aproximamos dela, mas nunca chega.

A cidade de quem passa sem entrar é uma; é outra para quem é aprisionado e não sai mais dali; uma é a cidade à qual se chega pela primeira vez, outra é a que se abandona para nunca mais retornar; cada uma merece um nome diferente; talvez eu já tenha falado de Irene sob outros nomes; talvez eu só tenha falado de Irene.
(As Cidades e o Nome 5. As Cidades Invisíveis)

Com aquele pensamento que só gente com dezoito anos é capaz de ter, fui o imperador querendo que o comerciante respondesse exatamente o que lhe era perguntado.

– Quando pergunto das outras cidades, quero que você me fale a respeito delas. E de Veneza quando pergunto a respeito de Veneza.
– Para distinguir as qualidades das outras cidades, devo partir de uma primeira que permanece implícita. No meu caso, trata-se de Veneza.
– Então você deveria começar a narração de suas viagens do ponto de partida, descrevendo Veneza inteira, ponto por ponto, sem omitir nenhuma das recordações que você tem dela.
(6. As Cidades Invisíveis)

Com aquele pensamento que só gente com dezoito anos é capaz de ter, larguei As Cidades Invisíveis. Deixei Calvino esquecido numa prateleira poeirenta da minha cabeça que lembra das coisas – aquelas que não importam muito – como um gravador.

É que, com dezoito anos, não entendi uma palavra daquele livro.

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Mas Calvino, paciente, encontrou um jeito de voltar. Com um Rei, é claro.

De todas as mudanças de língua que o viajante deve enfrentar em terras longínquas, nenhuma se compara à que o espera na cidade de Ipásia, porque não se refere às palavras mas às coisas. (…)
Compreendi que devia me libertar das imagens que até ali haviam anunciado as coisas que procurava: só então seria capaz de entender a linguagem de Ipásia.
(As Cidades e os Símbolos 4. As Cidades Invisíveis)

Essa minha ligação com a coroa me leva a lugares maravilhosos. Ler Um Rei à Escuta fez com que toda a parede lisa e opaca, que antes tinha a grossura de um muro de limite de cidade e tinha me impedido de ler Calvino, se desfizesse como pó.

Ávida, li mais. Ouvi mais. E refleti. Demoradamente, como eu – ainda bem – faço hoje. Voltei para As Cidades Invisíveis. Julguei que era um livro que merecia ser lido de novo. Ou melhor: lido, pela primeira vez.

Boa decisão. Excelente decisão. Decisão, essa sim, com característica de decisão tomada por gente grande.

Na porta dos trinta anos, foi mais fácil e mais difícil – muito mais difícil – ler As Cidades Invisíveis.

Ao amanhecer, disse: – Sire, já falei de todas as cidades que conheço.
– Resta uma que você jamais menciona.
Marco Polo abaixou a cabeça.
– Veneza – disse o Khan.
Marco sorriu.
– E de que outra cidade imagina que eu estava falando?
O imperador não se afetou.
– No entanto, você nunca citou o seu nome.
E Polo:
– Todas as vezes que descrevo uma cidade digo algo a respeito de Veneza.
(6. As Cidades Invisíveis)

E, com trinta anos, escrever esse texto é, ao mesmo tempo, inevitável e impossível. Quero falar de mais cidades. Quero falar de todas elas. Quero engolir todas elas ao mesmo tempo. E quero ficar com elas pra sempre. Quero desenhar todas elas, decorar todas elas. Quero que cada Cidade seja uma cidade, e quero morar em todas. Em cada uma delas há um pouco de Berenice, já “que todas as futuras Berenices já estão presentes neste instante, contidas uma dentro da outra, apertadas espremidas inseparáveis”. E, em cada uma delas, há um pouco de mim.

Tudo isso para que Marco Polo pudesse explicar ou imaginar explicar ou ser imaginado explicando ou finalmente conseguir explicar a si mesmo que aquilo que ele procurava estava diante de si, e, mesmo que se tratasse do passado, era um passado que mudava a medida que ele prosseguia a sua viagem, porque o passado do viajante muda de acordo com o itinerário realizado (…) a surpresa daquilo que você deixou de ser ou deixou de possuir revela-se nos lugares estranhos, não nos conhecidos.
(2. As Cidades Invisíveis)

E a beleza infinita desse livro encontra espelho, enfim, na dedicatória enigmática que veio com ele. Há doze anos, não entendi uma palavra do que meu amigo escreveu naquela folha de rosto. Hoje, calejada da análise acadêmica de documentos escritos à mão no século XIX, compreendo a maioria das palavras que estão ali.

Mas não todas as palavras.

E nunca – nunca – todas as Cidades.

– Quando conhecer todos os emblemas – perguntou a Marco –, conseguirei possuir o meu império, finalmente?
E o veneziano:
– Não creio: nesse dia, Vossa Alteza será um emblema entre os emblemas.
(As Cidades Invisíveis)

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