Luzia

Eu tinha doze anos quando vi Luzia pela primeira – e agora única – vez.

Um privilégio.

Meus pais foram visitar a Mostra do Redescobrimento, que aconteceu em São Paulo, no ano de 2000. E eu tava junto. Um baita privilégio.

Daquele evento de proporções meio épicas, que montou seu acervo com ajuda de muitos outros acervos ao redor do mundo, guardo poucas coisas. Três, pra ser mais precisa.

A primeira, consigo descrever de memória. Uma capa de penas vermelhas. Lembro da pompa da exposição. No meio da sala, com aquele vidro à prova de tudo, iluminação que valorizava as cores e texturas da peça. Parecia flutuar. Maravilhosa. Todo mundo queria ver a tal capa, era uma das peças mais esperadas da Mostra de aniversário de 500 anos do país.

Mas precisei pesquisar nomes e origens. Essa semana, consultei o livro guia que meus pais compraram na exposição e tenho até hoje na minha estante – quase como uma prova de que eu realmente fui nessa exposição, que eu realmente estava lá, vendo aquelas coisas todas. O “Manto Tupinambá”, ou Mantelete Emplumado. A peça foi emprestada pelo National Museum of Denmark, de Copenhaguen.

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vale conferir aqui

Essas coisas loucas que acontecem com museus, né? De repente, um museu da Dinamarca empresta para o Brasil um Manto Tupinambá.

Pois é.

A segunda coisa, uma sala inteira. Chamada O Olhar Distante, uma coleção de pinturas de artistas estrangeiros que retrataram o Brasil em vários séculos. Naquela sala, eu vi, sem ver de verdade, quadros de Jean-Baptiste Debret. Se eu pudesse falar com a Martinha de doze anos, ia dizer pra ela olhar melhor aqueles quadros, perceber bem aquelas cenas que o francês pintou. Ia alertar que aquelas pinturas iam significar muito na vida adulta de historiadora dela.

Slavery_in_Brazil,_by_Jean-Baptiste_Debret_(1768-1848).jpg

Esse cara, Martinha, presta atenção em como ele retrata esse cotidiano aí. Você ainda vai se interessar demais pelo Século XIX, pelo Império e pela escravidão. Vai se arrepender de não ter olhado melhor esse detalhe bem na sua cara. Mas sabe, Martinha, eu também ia dizer, pelo menos seus pais compraram o livro dessa exibição. Você pode correr lá, quando quiser olhar melhor pra todos os detalhes que você perdeu de ver com a mão, mesmo sem poder encostar nesses quadros.

Essas coisas loucas que acontecem com museus, né? A gente pode ver coisas sem ver de verdade e sem entender direito, mas ainda sim dar significado (e ressignificado) pra elas.

A terceira, foi Luzia.

Luzia.png

Não precisei pesquisar nada sobre Luzia. A imagem da primeira brasileira, de quase treze mil anos, nunca descolou da minha cabeça.

Vi seu crânio. E a sequência dos estudos arqueológicos e das reconstituições até chegar ao modelo de rosto que vocês devem ter cansado de ver nos últimos dias. Eu não sabia nada sobre esses termos lá. Continuo sem saber direito sobre quase todas as nuances técnicas hoje. Mas lembro bem de ter pensado como devia ser maluco fazer a cara de uma pessoa só com aquele pedaço de crânio ali. Como será que eles sabem tudo isso? Como será que ela morreu? Será que ela era careca mesmo?

Eu tinha doze anos, talvez onze, não tenho bem certeza.

Era o ano 2000. O ano do bug do milênio. Aqui, na internet, era tudo mato. E lá, na exposição, eu dei de cara com Luzia.

Eu nunca mais esqueci da Luzia.

Um baita privilégio meu. Que agora Martinha nenhuma mais vai poder ter.

Essas coisas loucas que acontecem com museus, né?

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