metalinguagem

“Era uma noite escura e tempestuosa…”

Tive uma ideia pra escrever um livro.

kelly-sikkema-580858-unsplash

Bom, tá. Não sei dizer o que veio antes. A ideia pra escrever um livro ou a obsessão de escrever um livro. Nova década, novas obsessões.

Enfim. Tive essa ideia. É uma boa ideia. Sei que é. Minha história tem começo, meio e fim – embora eu não goste de como ela vai terminar. Ela, a história, envolve até um experimento de linguagem, um formato narrativo diferentão. E aqui vou confessar que não sei como vou me sair nessa parte. Gosto do modelo tradicional de narrativa. Capítulos, terceira pessoa, narrador sem muito envolvimento, neutro. O convencional, nesse caso em particular, parece difícil de desafiar.

A convenção está por toda parte e triunfa como a velhice: depois de certa idade, morremos dela ou com ela, li esses dias num livro de James Wood, que já escreveu, segundo fontes seguras (Wikipédia), uns oito livros. Parece bem fácil pro James Wood escrever uns oito livros.

Tive uma ideia pra escrever um livro.

Abri um novo caderno. Novas ideias, novos cadernos. Comecei a escrever um esqueleto de projeto, desenhar os personagens, separar tópicos em uma sequência de relativa lógica, até pensei em elementos de coerência interna do texto e…

Oi, sumida, disse a Ansiedade.

tim-wright-506562-unsplash

Mas como vai ser? Será que alguém vai se interessar por essa história que planejei contar? Será que vão ficar pensando se passei ou não passei por isso? Vai ser em primeira pessoa? Será que minha propriedade em contar uma história – quer ela tenha acontecido comigo ou não – é suficiente para descolar narrador de autor? Será que preciso fazer uma linha do tempo? Montar um perfil de cada personagem antes? Quantas páginas precisa ter um livro pra ser considerado um livro? E os capítulos? E essa história, ela é meio óbvia, né? Pra que(m) eu tô escrevendo? Será que alguém vai se interessar por essa história?

Tive uma ideia pra escrever um livro.

E achei estúpida essa minha ideia pra escrever um livro. E essa história. Isso nunca vai dar certo, sabe? Nunca vai acontecer. Eu só vou ficar ruminando essa história toda por mais alguns anos – é isso que vai acontecer, a gente sabe. Eu nunca termino nada.

Tive uma ideia pra escrever um livro.

Só que tenho muitos problemas com ficção. Não sei se existe esse negócio aí, de ficção. Acho que, bem lá no fundo, tudo é autobiografia. Ou talvez, não sei. Talvez seja tudo ficção.

Tudo é ficção. Tudo é autobiografia. Tudo é narrativa.

Tive uma ideia pra escrever um livro.

E ela vai ficar aqui, alimentando esse looping infinito de metalinguagem. Até que outra ideia apareça.

Nova década, novas ideias, novos cadernos. Mesmos problemas.

Êta disco arranhado.

miguel-ferreira-472302-unsplash


3 comentários sobre “metalinguagem

    1. Duda do céu! Imagina ficar vinte anos com a ideia sem escrever tudo? Me vejo muito fazendo isso!
      hahahahaha
      fiquei até meio emocionada com esse comentário – e deu muita vontade de ler a biografia!!

      Curtir

      1. Sim! Quem disse que precisamos terminar tudo de uma vez? Ou que tudo que começamos precisamos terminar? O que é, afinal, terminar? Se aquela experiência foi válida por aquele dia, por aquelas horas, por aquele momento, e não permaneceu por mais dias, horas etc, será se ela já não terminou por si só? Será se quando decidimos não avançar não significa que ela já cumpriu o seu papel em nossas vidas e terminou, por assim dizer, a sua missão e o seu ciclo de vida? Acho que precisamos aprender a não nos cobrar tanto, tentar viver um dia de cada vez (carpe diem), uma experiência por vez, sem essa busca incansável de produtividade e uma razão formal pra fazer aquilo. Podemos fazer apenas por vontade de fazer e depois quando acabar a vontade não tem problema nenhum parar… E se a vontade retornar (depois de 20 anos), tudo bem retomar aquele trabalho, aquela atividade… Tem tanta coisa na vida que temos que fazer e “terminar” pra conseguirmos viver nas “regras” do mundo (produtivista, capitalista e machista): estudar, trabalhar, constituir família etc. Por que não nos permitir viver um outro tempo com algumas outras atividades? Por que não fazer algo apenas pra mim, apenas pra minha necessidade existencial e emocional? Por que tudo tem que entrar na forminha de pão do mundo?

        Abraço forte em você Martinha! Saudade! E siga em frente sempre, com ansiedade ou não!…

        Da Duda (escritora de dois livros inteiros apenas na minha cabeça e sem data pra lançamento)

        Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s