batalhão de Marianas

Acordei ontem com esperança.

Vai que dá, pensei a manhã toda. Fui votar assim.

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Mas a minha seção, ela é implacável.

Voto no mesmo colégio desde os dezesseis anos. É uma seção que pensa fácil. Que escolhe não ver a complexidade do mundo, da política, das nossas escolhas como eleitores. Que, na real, reflete bem as outras seções espalhadas por aí.

Votei. E azedei.

Na minha cabeça ansiosa e campeã de piores cenários, o texto da derrota tava pronto desde quando pisei no colégio pra votar. Quanto mais perto do horário de fechar as urnas, mais elementos eu inseria. Lá por umas quatro horas, escrevi. Tava difícil conviver com aquele texto só no Mundo das Ideias.

Ontem foi dia de derrotas e eu listei algumas razões pelas quais a gente já tinha perdido, antes mesmo de perder. Foi um texto de derrota de cabo a rabo. Triste. Deprimido. Entreguista.

Mas hoje, não.

Hoje acordei pensando que eu ganhei, sim.

Se você vem aqui já a algum tempo, conhece bem minha família. Já leu sobre meu pai, minha mãe. Minha irmã Fabi, meu irmão Pedro. Conhece Renan e a maioria dos meus amigos, também. Mas você ainda não conhece minha irmã Mariana. Deixa eu te apresentar, então. A Mari.

Mari sempre foi um modelo a ser seguido em casa. Notas, trabalhos de escola, maquetes, comportamento, força de vontade, tratamento dos pais, dos primos, dos irmãos. Tudo que ela faz é extraordinário. Meus pais não poderiam ser mais felizes. Eu não poderia ter mais dor de cotovelo.

Nossa diferença de idade é de seis anos, para mais ou para menos. Enquanto a gente crescia, isso era muito. Brigávamos todo dia – bonecas, vestidos, sapatos, basquete, praia, festinhas, maquiagem. Eu jurava de pé junto que jamais faria qualquer coisa remotamente parecida com o que Mari fazia.

Por seu turno, Mari também fazia de tudo pra transformar minha vida num rebuliço, sabe como é, né? Claro que sabe. Ela tinha a pachorra de jogar Mario Bros melhor do que eu – e você sabe como eu levo videogame a sério, né? Claro que sabe.

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Eu tinha dezesseis anos e já era portadora orgulhosa de um Título de Eleitor quando Mari foi viajar. Passou meses fora. Eu senti saudades. Ela me mandou um postal de aniversário. Trocamos cartas. E quando ela voltou pra casa, nós já não éramos mais as mesmas pessoas. Nossa relação mudou.

E nunca passou uma eleição sem que Mari pedisse pra mim uma colinha de votos. Martinha, em quem você vai votar? Me passa aí os números que eu quero ver. Só que era isso. Eu apresentava meus candidatos, relutante. Mais pra não criar caso com a ariana do que por qualquer outra coisa. A gente nunca conversava depois. Nunca soube se ela seguia ou não minha colinha.

Aí, pouco antes do primeiro turno, veio o pedido de colinha.

Mas tinha algo de diferente nele. Não era só um pedido de colinha. Desenvolvemos uma conversa. Uma conversa que se estendeu por esse último mês inteiro. Uma conversa que ela puxou. Que ela alimentou. Olha essa notícia! Vocês viram esse estudo? Acho que isso aqui é mentira, vou pesquisar. Nossa, não consigo entender como isso tá acontecendo! Me ajuda a responder isso aqui! Você viu essa proposta? Não achei esse detalhe no plano de governo!

Mari é uma pessoa extremamente inteligente, nunca foi massa de manobra. Mas a verdade é que eu nunca tinha visto ela se interessar por política. Não assim.

Ter visto isso acontecer agora, num mar de desinformação e de gente que topa a primeira narrativa fácil pra se isentar e se poupar daquela autocrítica que cobra tanto dos outros foi incrível. Conversar com a Mari, nessas últimas semanas, me encheu de esperança.

Ler que o que Mari escreveu sobre essa experiência me encheu de esperança.

Descobri os valores que a Mariana acredita. Descobri o quão privilegiada a Mariana é e foi. Mas também descobri que a vida da Mariana dentro de um condomínio pode ser diferente e que esse MURO pode ser quebrado.

Ver essa Mari dessas últimas semanas me fez acordar hoje com um sentimento – pequeno, é verdade – de vitória.

E de felicidade: o que foi visto não pode ser desvisto. Nem por mim, nem pela Mari.

Então o que eu desejo mesmo, em tempos difíceis como esse que enfrentamos, é que você também possa ter uma Mari na sua vida. Que a sua Mari possa, como a minha, alegrar seus dias mais sombrios.

A gente vai precisar de um batalhão de Maris.

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10 comentários sobre “batalhão de Marianas

  1. Ah meu Deus! É muita emoção acordar na semana LUTO (do verbo lutar, claro) com esse textão! É muito orgulho poder aprender tanta coisa com vc! E pensar que eu quando pequena nunca quis perder o trono de caçulinha, hoje não me vejo tomando varias das minha decisões sem pedir sua influência intelectual. Às vezes queria só ter um pouco dos seus pensamentos…mesmo que eles me deixassem ansiosas (porque isso não sou nem um pouco). Às vezes eu queria ser a Martinha de alguém…porque quem não tem uma Martinha na vida, gente , não sabe e nem nunca saberá o que é ser intelectualmente influenciada. 😍 Amo sem
    Limites! Depois de um batalhão de Martinhas poderá chegar o batalhão de Marianas.

    > Siga a Mestre!
    ❤️🇧🇷

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  2. 😢😢😢vocês me fazem chorar logo assim de madrugada e sem tomar café…mas é um choro salgado( um misto de orgulho e alegria) . Sim, orgulho de conviver com tantas ideias e determinações de Martinha, Mariana, Fabiana (minhas meninas) que vivem de “LUTO” do verbo lutar e me inlfam de satisfação por conjugarem com tanta categoria esse VERBO 🙋🏼‍♀️ Eu luto sempre por vocês e Nós 🙋🏼‍♀️🙋🏼‍♀️🙋🏼‍♀️🙋🏼‍♀️lutamos todas por dias melhores !!! ❤️❤️❤️❤️

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  3. Muriel, tenho que compartilhar que nunca esquecerei aquela tarde de trabalho no escritório. Eu não sou virginiana e não sou boa como você para datas. Era 2014 e a onda de protestos tinha começado. Naquela tarde, estava acontecendo um Praça Rui Barbosa e nós nos olhamos e conversamos sobre o rumo que as coisas iam tomar, das semelhanças com a nossa história recente, que já conhecíamos e que não era um bom caminho.
    Eu era coxinha. No dia do vazamento daquele grampo ilegal que veio anos depois, eu me lembrei de 2014 e nós duas, em nossa ilha, no escritório. Soube que estávamos certas.
    E eu deixei de ser coxinha.

    Posso dizer que você é uma das minhas “Maris” também! ❤

    Curtido por 1 pessoa

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