a varinha escolhe o bruxo

– Lembro-me de cada varinha que vendi, Sr. Potter. De cada uma. Acontece que a fênix cuja pena está na sua varinha produziu mais uma pena, apenas mais uma. É muito curioso que o senhor tenha sido destinado para esta varinha porque a irmã dela, ora, a irmã dela produziu a sua cicatriz.
Harry engoliu em seco.
(Harry Potter e a Pedra Filosofal, O Beco Diagonal)

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Elena Ferrante me cercou.

Na primeira vez que apareceu – anos atrás, num amigo secreto – ela sacou que eu ainda precisava de um tempo. Me deu espaço, mas continuou sua ronda. Era a autora que todo mundo estava amando, mas ninguém sabia quem era. Em todo lugar de livros que eu ia, alguém tava falando dela. O hype da literatura.

No meio do ano passado, ela fez seu movimento mais contundente: encantou minha professora preferida. Pro trabalho de conclusão da disciplina que cursava com Marcella, eu iria escrever sua biografia. Encontrei com ela num café perto da universidade, tínhamos marcado uma entrevista.

– Você já leu Elena Ferrante, Marta?
– Não, profe. Ainda não.
– Pois leia. Eu estou no fim da série e antes de vir pra cá, li algo que quero compartilhar com você.

Eis o pedaço que ela dividiu comigo:

Disse que desde então estava sempre atenta a não se esquecer de que somos seres muito complexos, cheios de física, astrofísica, biologia, religião, alma, burguesia, proletariado, capital, trabalho, lucro, política, inumeráveis frases harmônicas, inumeráveis frases desarmônicas, o caos de dentro e o caos de fora.

Uma das coisas que faz com que Marcella seja minha professora favorita é que ela compartilha o que lê. Mas faz de um jeito único, singular. Escolhe trechos a dedo e não só os lê para seus ouvintes. Ela vive a narrativa. E faz com que seus ouvintes vivam também.

E aquelas palavras ganharam vida ali. Sentido, significado, contexto. Elena Ferrante estava – em definitivo – no meu radar (como eu já estava no dela).

Mas mais de um ano ainda nos separava.

Comprei A Amiga Genial, o primeiro volume da série, no final do ano passado. Mas ele estava ainda na fila, e no plástico para conservar seu aspecto de novo, até o feriado de independência desse ano. Nunca era a vez de abrir aquele livro.

Até que foi.

Há momentos em que aquilo que se põe ao lado de nossas vidas e que parece que as acompanhará para sempre – um império, um partido político, uma fé, um monumento, mas também simplesmente as pessoas que fazem parte do nosso cotidiano – vem abaixo de maneira repentina, justamente quando somos tomados por mil outras coisas.

Tenho certeza que não escolhi a hora de ler A Amiga Genial. Foi Elena Ferrante quem ditou as regras. Ela sabia que eu precisava de algumas experiências específicas antes de conhecer a história de Lenú e Lila. E ela sabia que, quando eu começasse, eu não ia parar até terminar.

Existem livros que parecem pacotes de bolacha.

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Engoli.

Durante quarenta e dois dias, mergulhei na vida de Lenú e Lila. Tenho um soft spot por histórias de amizade. Não queria saber de fazer mais nada. Meus dias, meu trabalho, meus passatempos, todas as coisas que eu fiz nesse meio tempo viraram intervalos entre entrar e sair de Nápoles.

Entre entrar e sair daquela complexa relação. Entrar e sair da experiência particular que foi acompanhar a vida inteira dessas duas mulheres. Durante quarenta e dois dias, minha vida foi de espectadora. De olhar pelo buraco da fechadura aquela história. E de me ver, por mais vezes do que é possível contar, nela.

E eu não consigo ser como Marcella. Não consigo dividir de um jeito vivo uma parte desses livros. Não consigo montar uma sinopse, dar um resumo. Dizer sobre o fala Elena Ferrante. Destacar um pedaço que mais me marcou. Cada vez que tento, me escapa um detalhe que faz toda a diferença.

Um trecho em que eu achei que era Lenú.

Sem esforço soube separar minhas palavras de mim.

Outro em que tive certeza que era Lila.

Eu sabia – talvez soubesse – que nenhuma forma jamais poderia conter Lila e que, mais cedo ou mais tarde, ela arrebentaria tudo outra vez.

Uma frase que eu já tinha dito. Outra que eu já tinha ouvido.

“Estranhamento ou adesão, um efeito simultâneo de distância e proximidade.”
“Ou seja?”
“É difícil explicar: eu e você ficamos imediatamente amigos, eu gosto de você. Com ela isso sempre me pareceu impossível. Tinha algo de terrível que me fazia ter vontade de ajoelhar e confessar meus pensamentos mais secretos.”
Ironizei:
“Bonito, uma experiência quase religiosa.”

Um sentimento complexo que já tinha sentido nas minhas próprias amizades.

Era como se, por uma magia malévola, a alegria ou a dor de uma implicasse a dor ou a alegria de outra.

Ou vários.

Toda relação intensa entre seres humanos é cheia de armadilhas e, caso se queira que dure, é preciso aprender a desviar-se delas. Foi o que fiz também naquela circunstância e, ao final, tive a impressão de apenas confirmar pela enésima vez quanto nossa amizade era esplêndida e tenebrosa.

Váááários.

Assim a narrativa dos fatos precisa acertar as contas com filtros, remissões, verdades parciais, meias mentiras; do que resulta uma extenuante mensuração do tempo passado toda baseada no metro incerto das palavras.

É a varinha que escolhe o bruxo, Sr. Potter.

Transformar. Esse era um verbo que sempre me obcecara, mas me dei conta disso pela primeira vez somente naquela ocasião. Eu queria me transformar, embora nunca tenha sabido em quê. E tinha me transformado, isso era certo, mas sem um objeto, sem uma verdadeira paixão, sem uma ambição determinada.

É o livro que escolhe o leitor, Marta.

Ela respondeu:
“Cada um conta a própria vida como acha melhor.”


2 comentários sobre “a varinha escolhe o bruxo

  1. … tudo que vc conta ou escreve sobre livros, filmes desperta em mim o desejo de assistir, ler. Mas, mesmo lendo ou assistindo eu nunca me sinto a altura para dialogar com vc SOBRE porque vc está há anos LUZ de meu saber…te amo e te admiro !!!

    Curtido por 1 pessoa

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