às vezes um clichê

No começo de 2003, meu pai se formou.

Cinquentão, seu Pedro concluiu o curso de Hotelaria e Turismo e anunciava ao mundo, orgulhoso, que agora era turismólogo. A vida parecia incrível e promissora pra ele. Eu não sei se inventei, mas tenho em mente que ele e minha mãe já tinham planejado tudo pra vida-depois-de-encaminhar-os-filhos: viajar o mundo, conhecer a América Latina toda, comer gafanhotos em Bali, levar os amigos pra excursões dessas de velhinhos pelo sul da França, sabe? Claro que sabe.

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Não rolou.

Em abril daquele ano, o AVC veio e o resto é história. Se você já vem aqui há algum tempo, sabe como esse lance do meu pai aconteceu e como é um pouco da nossa vida depois disso.
(Se é a primeira vez que você tá ouvindo falar nesse tópico, pode vir aqui, aqui e aqui)

Mas não é bem disso que quero falar.
(Embora meio que seja)

Descobertas da Semana era mais uma das playlists prontas que ignorava no Spotify. Mas numa segunda dessas, cliquei. Ainda bem. Das trinta faixas selecionadas exclusivamente pra mim, pulei umas poucas. Descobri músicas incríveis, que não saem da minha orelha desde então.

Só que não é de música que quero falar, também.
(Vocês não se irritam com essa mania de ficar falando das coisas sobre as quais eu não vou falar?)

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Quero falar desse texto que viralizou – antes dessa palavra existir – na voz de Pedro Bial lá no ano da formatura do meu pai. Uma tradução de um discurso americano que tinha ficado famoso na medida que dava pra ficar famoso na internet nos primeiros anos desse século.

Use Filtro Solar.

Tava lá, na minha playlist Descobertas da Semana.

Se existisse WhatsApp em 2003, todo mundo teria recebido o vídeo encaminhado no grupo da família pelo menos umas quarenta e duas vezes só na primeira semana do ano. Mas não existia WhatsApp em 2003. Havia basicamente duas maneiras de se ter contato com aquele vídeo: ou você recebia por e-mail ou o descobria nas formaturas que você ia. Passava em toda formatura, não escapava nenhuma – nem a formatura do meu pai.

E uma das coisas mais legais de ter vivido nessa época pré-WhatsApp era conhecer os vídeos de internet antes daquelas pessoas que só conheciam os vídeos nas formaturas que iam. Dava pra experimentar uma sensação de inflar, sabe? De saber qual era a próxima frase do vídeo momentos antes dela acontecer.
(tipo o que continua acontecendo comigo cada vez que passa maratona Harry Potter na TV)

E esse vídeo em particular, eu tinha decorado.

É que por volta dessa época, eu escrevia muito (ah, cê jura?). Mas não textos meus, fazia compilados. Diálogos que eu via em filmes, frases de efeito, ditados populares que eu não entendia direito, pedaços de música. Fazia esse trabalho de coleta em folhas sulfite, separando cada pedaço do que escrevia em ilhas.

E logo de primeira, quando recebi esse vídeo por e-mail, com legendas duvidosas e sem meios de confirmar se tava certo ou não, fiquei impactada. Vi muitas e muitas vezes e, tendo gostado demais do que eu vi e sem saber lidar com a chance de perder aquelas palavras para sempre (ai Marta, que drama), transcrevi a legenda inteira pra esses papeis que eu fazia.

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Sei lá, acho que foram umas quatro páginas de uma caligrafia sofrida, vacilante, meio torta. Quando cheguei na parte das mudanças, pensei que não fazia sentido eu transcrever “more em Nova York” e “more na Califórnia”. Mudei para “more na cidade grande” e “more na praia”, mas não sem moderado cagaço de fazer aquela alteração – hoje, lido melhor com a ideia de que traduzir é trair.

Tenho gravada aqui na memória a imagem de uma menina olhando pra chuva enquanto o texto falava sobre a (falta de) eficiência de se preocupar com o futuro e mascar chicletes pra resolver equações de álgebra. E a imagem de um casalzinho idoso dançando feliz enquanto o narrador contava que bodas de diamante ou divórcio aos quarenta eram duas possibilidades de futuro, mas que o grande lance era você não se cobrar muito em qualquer cenário.

Conselhos, disse Pedro Bial naquela voz inconfundível no meio da minha playlist, são um jeito de limpar o passado e vender experiências por um preço maior do que de fato elas valem. Mas usem filtro solar.

Esses discursos, eles são todos trabalhados no clichê.

Filtro Solar é um texto ridiculamente clichê. Construído de obviedade em obviedade, de frases feitas e ditados populares, um atrás do outro.

Mas meu ponto é que não é só isso.

Vez ou outra é bom voltar pra essas coisas ditas nas formaturas todas. Pensar um pouco sobre elas. Não é porque dizer eu te amo é batido que ninguém mais se apaixona.
(aqui vai um outro clichê pra vocês: esse textão todo poderia ser substituído pela citação abaixo)

A ressalva a se fazer à convenção não é que ela seja falsa per se, mas que ela acaba se tornando, pela repetição, cada vez mais solidamente convencional. O amor vira rotina (e de fato Barthes declarou uma vez que “te amo” é a coisa mais batida que alguém pode dizer), mas isso não anula o fato de se apaixonar. As metáforas podem morrer por excesso de uso, mas seria maluquice acusar a própria metáfora dessa morte.
(James Wood. Verdade, Convenção, Realismo)

Bom. Sei lá.

Pode ser só porque eu adoro discursos de formatura. Sabe?


2 comentários sobre “às vezes um clichê

  1. …quando duas pessoas se AMAM, elas crescem juntas, elas aprendem juntas e ambas se completam transformando-se no melhor que podem SER, sendo FELIZES apesar de; terem feito planos de viajar para o sul da França e contentar-se em viajar com um grupo de aposentados para Almirante TamandaYork e achar o MÁXIMO rsrsrsrs🙏🙏🙏

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  2. Lembro muito desse vídeo!!! Não lembro como recebi…(e-mail, Orkut, miRc, Messenger ..kkkkkk)
    Adorei relembrar ele agora dessa forma… e…a vida muda de rumo né…planos (e projetos rsssss) são feitos para serem mudados ….

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